Bacelar e seus companheiros realizam um sonho
Assim foi que tudo começou, com a ajuda de seus companheiros, da Federação Espírita e principalmente da luz que lhe iluminava os caminhos
Tudo começou com o pedreiro e construtor José Nascimento Bacelar, homem muito ativo e dinâmico. Inteligente, dotado de visão muito ampla, há muito tempo sonhava em fazer alguma coisa pelos seus semelhantes. Natural de Belo Horizonte – MG, tentara realizar em sua terra o sonho que acalentava. Como não conseguiu, insistiu em seus propósitos altruístas quando veio para São Paulo: nesta cidade encontrou ambiente propício, juntando-se a um grupo de companheiros que alimentavam um sonho semelhante ao seu: “Amparar o próximo desvalido, tanto pelo aspecto moral quanto espiritual.” Animado com o apoio que recebia dos amigos, e amparado pelo plano espiritual, Bacelar resolveu fundar um centro espírita, e de fato o fez, tendo iniciado suas reuniões doutrinárias numa sala alugada de uma velha casa na Rua Caquito, Penha. Durante muito tempo dirigiu ali concorridas sessões espíritas; e foi lá que ele e seus companheiros redigiram o primeiro Estatuto do Centro Espírita Bezerra de Menezes.
Com o passar do tempo, aumentou consideravelmente o afluxo de pessoas às reuniões do Centro, que se tornou pequeno demais para acomodá-las. Resolve-se então construir uma sede própria, de grandes dimensões, não só para situar o Centro, mas também para abrigar idosos e desamparados. Bacelar sentia-se profundamente penalizado quando via pessoas idosas praticamente abandonadas pelas ruas do bairro.
Iniciou-se então uma campanha, convocando inicialmente todos os que participavam das reuniões doutrinárias. Dinheiro, na verdade ninguém tinha. Os participantes das sessões, em geral pobres assalariados, lutavam com dificuldades para o sustento da família, mas o grupo se articulou. Uns se propuseram a intensificar a campanha pedindo ajuda ao povo por intermédio da antiga Rádio Piratininga, outros formaram um grupo de teatro integrado por rapazes e moças dispostos a realizar espetáculos para arrecadar dinheiro. O objetivo inicial era a compra de um terreno, então propriedade de um casal, o mesmo terreno hoje ocupado em parte pelo Auditório da Associação, na Rua Omachá, 182. O preço do terreno era 10 contos de reis, quantia bem expressiva para a época.
Fala de Bacelar: “ Esta associação fundou-se em 15 de janeiro de 1941 com limitadíssimo número de associados. Após o primeiro trimestre de sua vida social, verificou-se aumento de seu quadro, porque a ela ocorreram muitas pessoas ansiosas de conhecer a Doutrina dos Espíritos. Em 1942, ante o grande número de assistentes aos trabalhos espirituais, fui obrigado a pensar na construção de uma sede própria, porém nossa situação financeira era das mais precárias. Meus companheiros eram como eu, todos desprovidos de recursos. O Alto, no entanto, não faltou com sua proteção. Obtendo um empréstimo, consegui reunir a importância para grande parte do material necessário e, aos domingos, entregava-me pessoalmente à obra de levantamento das paredes ajudado pelos meus abnegados companheiros. Conseguimos assim, sem mão de obra estranha, construir o salão de sessões e conferências, que se inaugurou em dezembro de 1942.
Desde a fundação da Associação, impressionava-me a situação lamentável da velhice desamparada, do bairro da Penha, que vinha solicitar assistência nossa. Compreendi logo que uma instituição espírita deveria ter por fim principal amparar seus irmãos desprotegidos da sorte, quer na parte espiritual como na parte material, minorando suas dores na via dolorosa de sua peregrinação neste mundo. Assim pensando, voltei minhas vistas para o restante do terreno onde estava construída a sede da Associação, planejando construir ali um abrigo para a velhice desamparada. Fiz cientes desse meu plano os meus companheiros, então foi surpresa para mim notar a grande perturbação que lancei no íntimo de seus corações, pois tinham razões bastantes para estranhar que me aventurasse ao empreendimento de obra tão custosa, sem ainda havermos saldado os compromissos para a construção da sede. Desconfiavam eles de suas forças e quase fiquei também a desconfiar das minhas! Não me faltava, entretanto, confiança nos Espíritos, porque conheço bem a missão deles na Terra. Sabia perfeitamente que eles não falham quando temos sinceros desejos de minorar a dor de nossos irmãos; por isso insisti na proposta da construção d abrigo e, por fim, todos me acompanharam no início das obras.
Entretanto, grandes preocupações me atormentavam, especialmente durante as horas da noite destinadas ao meu repouso. Mas tinha confiança nos Espíritos! Era preciso procurar, com seu auxílio, um caminho honesto para solucionar o problema da assistência à velhice. Elevando meu coração ao Altíssimo, senti que a estrada me tinha sido franqueada: era preciso que levasse à cena no palco da Associação peças teatrais espíritas, para, com o produto, construir o abrigo. Mas onde encontrá-las? Sem nunca ter pensado sequer em ser escritor de dramas, aventurei-me a escrever algumas peças dramáticas e tratei de organizar um elenco e construir o palco no salão. As peças seriam exibidas mediante pequeno auxílio que aqueles que o quisessem dariam à Associação, para auxílio à construção.
Roubando minhas horas de descanso, sentava-me a uma mesinha, pensando diante de um papel e de lápis na mão. Não tardou o auxílio lá do Alto: Veio-me inspiração e escrevi as pelas teatrais: “Entre dois mundos” (adaptação); “O condenado da penitenciária”; “Mãe sem coração”; “Nascimento de Jesus”; “Vingança do Judeu” (adaptação) e outras peças. Para os festivais lancei mão, também, de outras pequenas peças profanas, adquiridas em uma livraria da capital.
Até o ano de 1945, tudo ocorreu bem e as obras iam prosseguindo com entusiasmo, graças aos esforços de meus companheiros de elenco teatral, especialmente de Augusto Ciavatta, que se tornou meu braço direito.
Em princípios de 1946, faltando ainda muito que fazer para terminar o prédio, o desânimo invadiu nossos corações. Faltavam recursos, em face da repentina alta dos materiais de construção que transtornara todos os nosso orçamentos. Que fazer? Era preciso obter mais de um empréstimo. Recorri, então aos conselhos do meu grande amigo Benedicto de Godoy Paiva, com quem fui trocar idéias sobre como procedermos para que a obra não ficasse paralisada. Encontrei nele a melhor boa vontade. ‘Tudo se arranjará, meu caro Bacelar’- disse ele. E logo no Domingo seguinte tudo estava resolvido. É que meu amigo Godoy Paiva, ao dirigir a reunião dominical da manhã, na Federação Espírita do Estado de São Paulo, expôs aos assistentes as dificuldades em que se encontrava a Associação, ameaçada de paralisar as obras de construção do abrigo, por falta de recursos. E o fez de tal modo que comoveu profundamente a todos que o ouviram. Terminada a reunião, D. Rosa Braga o seu digno esposo Antonio Xisto Braga enviaram para terminação das obras, por intermédio do Paiva, o valioso donativo de mil cruzeiros, o mesmo fazendo o Dr. Dafinis de Freitas Vale. Outros assistentes enviaram menores quantias e, tudo reunido, obtivemos o suficiente para cumprir nossa tarefa.”
Um sonho de amor estava sendo realizado. Era hora de trabalhar mais.
A Associação inaugura sua sede própria
Com isso foi-se vislumbrando a criação do Abrigo para a Velhice Desamparada. De chão de terra batida erguem-se as paredes do Centro
Graças à colaboração de todos finalmente, no dia 25 de dezembro de 1946 realizou-se o maior sonho da Associação Espírita Bezerra de Menezes: inaugurou-se o Abrigo da Velhice Desamparada na Penha.
O terreno havia sido adquirido com vistas à construção de uma sala, onde se realizam as atividades do Centro. Localizado num barranco, o terreno tinha uns cinco ou seis metros de frente, e sua área precisava de terraplanagem e limpeza, que foram feitas em sistema de mutirão aos sábados, domingos e feriados. Para ajudar na compra dos materiais de construção, muitos companheiros colaboraram angariando e vendendo latas vazias e ferro velho.
Finalmente, graças a Deus, que inspirava a persistência de todos, ergueu-se a sala do Centro, que no início era de terra batida e tinha capacidade para umas trezentas pessoas. Mas, como esse centro era muito pequeno para atender os desamparados idosos, foram construídos nos fundos dois salões e demais dependências para acomodar 30 internados dando-se início, assim, ao Abrigo Bezerra de Menezes, no final de 1946.
José Bacelar era médium de cura, e atendia os que o procuravam no período da tarde, após o seu trabalho comum. Centenas de pessoas resolviam ali seus problemas de saúde, e com isso crescia o afluxo de consulentes, portanto, de sócios colaboradores, e a entidade crescia com eles, aumentando cada vez mais. Para completar a renda necessária à manutenção do Centro, o grupo de teatro continuava suas atividades, apresentando peças como a célebre Deus lhe Pague, de Joracy Camargo. Tornou-se famoso na Penha daqueles tempo.
As curas mediúnicas, as peças teatrais e principalmente o entusiasmo cristão de todos os que trabalhavam com Bacelar impulsionavam o progresso do Centro, cuja sala logo teve o piso cimentado e o teto forrado. Mas o número de freqüentadores aumentava incessantemente, obrigando a ampliação das instalações.
Um Abrigo da Velhice Desamparada surge na Penha
O abrigo Dr. Adolfo Bezerra de Menezes toma corpo, passa a fazer atendimentos mais importantes, e não pára mais de crescer: A instalação de novas alas, como a de serviços médicos, chegam e estão lá até hoje.

A necessidade de ampliação do Abrigo era premente, devido ao aumento de pessoas e atividades. Ao lado do terreno do Centro havia outro, de propriedade do mesmo casal que vendera o primeiro. Estes não relutaram em vendê-lo, proporcionando a ampliação. Entre outras coisas a apresentação da peça. A Vingança do Judeu, proporcionou os fundos necessários para a compra do novo terreno e também deixou o Centro em boas condições financeiras.
Abriram-se as portas, então, para os primeiros idosos desamparados no terreno novo, que era uma extensão do anterior, construíram-se um salão, uma cozinha e a primeira parte do Abrigo. O nome “Centro Espírita Bezerra de Menezes” já não era adequado, tinha que tornar-se uma Associação. E de fato tornou-se. Sob a égide dos Espíritos Bezerra de Menezes e Onofre Dias da Cruz, começaram-se a elaborar, por parágrafos, os novos Estatutos, dando-se feição jurídica ao que passou a ser, então, a Associação Espírita Beneficente Dr. Adolfo Bezerra de Menezes.
As instalações do Abrigo da Velhice Desamparada trouxeram com ela as naturais dificuldades financeiras, fato que, longe de desanimar, mais estimulava José Bacelar e seus companheiros. O número de idosos internados aumentava, era inevitável a ampliação das instalações do Abrigo e com isto redobrava-se o trabalho dos voluntários, entre os quais já se incluíam pessoas de certa nomeada, de situação econômica mais avantajada e, portanto, capazes de trazer maiores recursos. Concomitantemente, intensificavam-se as atividades do grupo teatral que fazia então representações também em outros bairros, e até em outros municípios, tornando as arrecadações mais significativas.
Como vimos, os terrenos onde estavam o Centro e o Abrigo eram dois lotes, através dos quais, a um nível mais alto, havia outros dois, e estes dois precisavam ser comprados para a expansão da casa. Precisavam ser, e foram comprados, iniciando-se a construção da outra parte do Abrigo, tijolo por tijolo, parede por parede. Foi surgindo assim, outra ampliação do prédio do Abrigo, de início pequeno e projetado na sua quase totalidade, para conter apenas dormitórios.
Os recursos financeiros, sempre curtos, davam lugar a lances de desprendimento e abnegação notáveis. A certa altura desta história encontravam os companheiros dificuldades em obter recursos para a cobertura do novo prédio; as paredes dele estavam nuas, sem acabamento. Foi quando apareceu uma senhora acompanhada de seu marido, para participar do primeiro Natal a ser realizado no novo prédio, ainda sem teto. Sensibilizada com o carisma de Bacelar, pela obra e pelo espírito de natal, a boa senhora e seu marido de pronto doaram um automóvel. “Lembro-me bem”, disse Augusto Ciavatta, um dos precursores do Abrigo. “Era um Ford. A mulher veio até nós e perguntou: - Olha, será que a renda deste carro dá para fazer a cobertura? A alegria foi geral e maior a admiração pelo gesto. Entusiasmada ela continuou: - Nosso carro está aí fora, aqui estão as chaves e os documentos. Cubram logo o Abrigo, queremos vê-lo coberto! Quinze dias depois a cobertura começou a aparecer”, contou ele.
O crescimento exige mais verbas para manter assistência aos idosos
Depois de atingir os seus principais objetivos o Abrigo começa a crescer; com isso aumentam as dificuldades. Várias campanhas e idéias surgem para aumentar a renda da entidade.

A Associação crescia. Em abril de 1963 foi inaugurada a sede social da Associação, na Rua D. Vicentina Alegretti, 293 – 1º andar, esquina com a rua Francisco Amaral. A esse tempo surgiu a idéia de transformar a Associação em Fundação, idéia que malogrou por diversos motivos, mas, principalmente, porque incidentes diversos, de ordem familiar, levaram o extraordinário José Bacelar a deixar a presidência da Casa. Ao cargo ascendeu umas das mais ativas colaboradoras da obra, Rosa Maria, em cuja gestão a idéia ganhou vulto. Para transformá-la, era necessário dotá-la de atividade que gerasse renda e daí a construção de um grande auditório (onde hoje funciona o Centro Espírita Bezerra de Menezes, à rua Omachá), para nele pôr em funcionamento um cinema, que poderia gerar renda, que , como sempre, seria encaminhada para ajudar a suprir as despesas do Abrigo, que não eram poucas nem pequenas.
Custeado por sócios, senhores de apreciáveis recursos financeiros, entre estes, José Ermínio de Moraes, Augusto Gonçalves e José Ferraz de Camargo, inaugurou-se o Cine Paz.
O cinema foi então arrendado a um empresário, possuidor de uma companhia distribuidora de filmes, o qual tentou, por todos os meios, tornar viável o seu funcionamento. Isto, porém, não ocorreu. Com o passar do tempo as apresentações se tornaram insustentáveis, era maior o prejuízo que o lucro, decidindo-se por isso o encerramento das projeções e o aproveitamento do auditório, para outros fins, como os atuais, onde existe um auditório próprio para as reuniões doutrinárias e outros eventos.
A essa altura, Rosa Maria começou a enfrentar sérios problemas particulares, que a levaram a entregar a presidência, nesta empossando-se o companheiro Jacinto de Oliveira. Abandonada a idéia de transformar a Associação em Fundação, tomaram vulto as dificuldades financeiras. Dívidas acumulavam-se: havia escassez de gêneros, de roupas, de sapatos, de remédios; mas não havia escassez de fé, de bom ânimo, de entusiasmo. Sempre com amparo do Plano Espiritual, intensificaram-se as campanhas de novos colaboradores que se juntaram aos que ali trabalhavam desde a fundação da Casa.
Ocorrências as mais edificantes marcaram o crescimento da Associação. Rifas, campanhas de sócios, pedágios, almoços e chás beneficentes, presépios em praça pública tudo visando a suprir os recursos financeiros.
Uma bela História de Amor
Depois de atingir os seus principais objetivos o Abrigo começa a crescer; com isso aumentam as dificuldades. Várias campanhas e idéias surgem para aumentar a renda da entidade.

Devido à constante ampliação do atendimento aos idosos e ao crescente número de pessoas que acorriam ao Abrigo, foram sendo realizadas diversas transformações locais, criadas novas unidades e a entidade passa a atender outras necessidades da comunidade carente.
No prédio da rua Vicentina Alegretti esquina com a Rua Francisco Amaral, em 1963, foram instalados um bazar, a administração, rouparia, salão de festas, lavanderia, barbearia, sanitários, consultório médico e enfermaria. Nessa época a Associação já atendia 150 idosos e inválidos de ambos os sexos, sem distinção de cor, raça ou religião.
Em 1976, no dia 8 de agosto, teve início a Escola de Moral Cristã. Nesta mesma época, a Associação recebeu a doação de um terreno de 16.000 m², no município de Itaquaquecetuba, bairro do Pequeno Coração, onde no dia 27 de março de 1977 foi criado o Grupo de Assistência Social José Bacelar, para atender as famílias da região.
A seguir, em 27 de agosto de 1978, foi inaugurado o Departamento de Assistência Social Meimei, para dar atendimento às famílias carentes da região de São Miguel Paulista. Este departamento era constituído pelo Centro Espírita Meimei, e possuía cozinha, refeitório, departamento médico e de enfermagem, gabinete odontológico e mais o suficiente para atender os que acorriam àquela entidade na época. Hoje tudo está mantido e são muitos os melhoramentos, inclusive com uma creche.
Atualmente, comemorando o seu 60º aniversário de fundação – ocorrido em 15 de janeiro de 2001 -, a Associação ocupa uma área superior a 24.000 m², distribuídos entre três unidades que a integram. Unidade I, Bezerra de Menezes(Matriz), à Rua Dona Vicentina Alegretti, 265, Penha de França, São Paulo; Unidade II, Meimei, à Rua Georgina Diniz Braghiroli, 128, Vila Nova Curuçá, São Miguel Paulista, São Paulo; Unidade III, José Bacelar, à Rua Frei Caneca, 280, Pequeno Coração, Itaquaquecetuba – SP, e uma unidade especial, de terapia e lazer, à Rua Manoel Fernandes Vicente, 1.101, Balneário Pires, Praia Grande SP.
Fiel a seus princípios e caridade cristã, a Associação ampara, gratuitamente, mais de 200 idosos e inválidos de ambos os sexos, sem distinção de raça, ideologia política ou crença religiosa, e o faz em dois abrigos. O primeiro na Unidade I, e o segundo na unidade III. Além disso, sempre em obediência ao preceito-mor do Espiritismo codificado por Allan Kardec, de acordo com o qual Fora da Caridade Não há Salvação, dá atendimento a mais de duas centenas de crianças em duas creches, uma na Unidade II, e outra na Unidade III, mantendo ainda, em ambas, várias salas de pré-escola; outrossim, ali mantém, pelo seu Departamento de Assistência Social, um extenso cadastro de famílias carentes das periferias de São Paulo e Itaquaquecetuba, as quais assiste nas suas necessidades básicas; e igualmente mantém, na localidade de São Miguel Paulista (Comunidade Santa Inês), um Posto de Assistência, que amplia esse auxílio a famílias carentes.
A Associação é mantida por um quadro de sócios-contribuintes; donativos de variada espécie; três bazares beneficentes (roupas, calçados,utilidades em geral); duas livrarias; uma lanchonete; campanhas de rua (com destaque para a Campanha da Fraternidade Auta de Souza e a Campanha do Quilo); pedágios; festas beneficentes; um ativo serviço de telemarketing e algumas raras e pequenas subvenções oficiais. Graças a ajuda intensiva da população, os abrigados da Associação vivenciam a estrutura acolhedora de uma entidade preocupada em atendê-los nas mais diversas necessidades, tais como cuidados ambientais, alimentares, de repouso, higiene, lazer e lhes proporcionar criterioso atendimento médico, de enfermagem, odontológico, fisioterápico, psicológico e espiritual.
Para a efetivação desse trabalho extraordinário, que se leva a efeito sob a inspiração de seu patrono espiritual Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, e sob a égide do Cristo de Deus, o meigo Jesus de Nazaré, a Associação emprega 270 funcionários em suas três unidades. Entre eles estão administradores, recepcionistas,médicos, enfermeiras, motoristas, cozinheiras, operadores de telemarketing, colaboradores e os mais que sejam necessários além de um vasto quadro de trabalhadores voluntários, que compõem uma operosa ala da imensa e luminosa Serra do Cristo nestas terras do Cruzeiro, o nosso amado Brasil.
A Associação realiza, assim, o ideal do seu principal fundador, José Nascimento Bacelar, que preconizava: “A prática da caridade espiritual, moral e material, por todos os meios a seu alcance.” Da caridade material ou beneficente, destacamos neste breve relato da história do Abrigo, alguns aspectos, os principais. Em relação à caridade espiritual ou benevolente são mantidos estudos experimentais e práticos do Espiritismo, três centros espíritas, Bezerra de Menezes, Meimei e José Bacelar, respectivamentenas Unidades I, II e III, aos quais acorrem mais de 6.000 pessoas por semana, que assistem a palestras doutrinárias, sobretudo no grande auditório da Unidae I – com 600 lugares – originário do antigo Cine Paz. Ali recebem passes e se beneficiam de uma efetiva terapia espiritual mediante orientação moral e ética à luz da Doutrina Espírita.
Concomitantemente, seus cursos regulares de Espiritismo para adultos, jovens e crianças, acolhem mais de 800 alunos e os freqüentadores das sessões em geral contam com duas livrarias e duas bibliotecas públicas nas Unidades I e II, as quais veiculam as obras básicas e complementares da Codificação, e mais livros e publicações de cultura espiritual, dando atendimento à exortação do Espírito Verdade, que proclama dois mandamentos: Espíritas Amai-vos e Instruí-vos.
Devoção ao trabalho e amor ao próximo marcam a vida do Médico dos Pobres.
O cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu no dia 29 de agosto de 1831 e exerceu a medicina como verdadeiro sacerdócio. Conhecido como O Médico dos Pobres, passou a infância na cidade natal de Freguesia de Riacho do Sangue, atual município de Jaguaretama, e começou a estudar em 1838 na Escola Pública da Vila do Padre.
Logo cedo mostrou sua grande inteligência, aprendendo em poucos meses os princípios básicos de sua educação. Em 1842 foi com a família para o Rio Grande do Norte e aos 11 anos iniciava o curso de humanidades; aos 13 dominava o latim a ponto de substituir o professor quando este não podia comparecer.
Nessa época a família ainda tinha boa situação financeira, mas seu pai perdeu todas as posses para saldar dívidas, daí por diante todos viveram com dificuldades. O coronel Antônio Bezerra de Menezes era fazendeiro mas se viu em problemas financeiros por sempre estar disposto a ajudar amigos e parentes. Quando visto em grandes dívidas, tentou passar todos os seus bens aos credores, estes não aceitaram a proposta e mesmo assim abdicou de tudo para ser apenas administrador do que possuía, tirando apenas o estritamente necessário para sustento do lar. Nessas circunstâncias Bezerra de Menezes lapidou seu caráter e a exemplo do pai sempre foi uma pessoa extremamente bondosa e correta em seus compromissos.
Com o objetivo de estudar medicina, viaja do Ceará para o Rio de Janeiro com dinheiro oferecido pelos parentes, apenas 400 mil réis. A quantia era tão irrisória que chegou na cidade com apenas 18 mil réis e mais nada. Em 1852 entra no Hospital da Santa Casa de Misericórdia como praticante interno e passa o dia estudando em bibliotecas públicas e dando aulas particulares para manter-se. Aos 25 anos forma-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e em 1858 é nomeado pelo cirurgião-mor do Exército, o mestre Manuel Feliciano Pereira de Carvalho, como seu assistente, dando-lhe o posto de cirurgião-tenente. Na ocasião também foi eleito membro da Academia Imperial de Medicina e, na Academia Nacional de Medicina, redator dos anais da Entidade por quatro anos.
Carreira política: Bezerra de Menezes casou-se em 6 de novembro de 1861 com Maria Cândida de Lacerda e teve um casal de filhos. Cinco anos depois ficou viúvo e no ano seguinte uniu-se em segundas núpcias com Cândida Augusta Lacerda Machado, irmã materna de sua primeira esposa, com quem teve mais cinco filhos. Foi eleito vereador pelo Partido Liberal em 1861 e reeleito em 1864, deputado federal em 1867 e ainda figurou numa tríplice aliança para uma cadeira no Senado. Dissolvida a Câmara dos Deputados em 1868, dedicou-se a atividades empresariais e criou a Companhia Estrada de Ferro Macaé-Campos, concluída em 1873. Foi um dos diretores da Companhia Arquitetônica em 1872, empresa responsável pela abertura da Boulevard 28 de setembro, no bairro de Vila Isabel e, em 1875, presidente da Companhia Carril de São Cristóvão. Voltou à política e foi eleito vereador em 1876 e presidente da Câmara Municipal, cargo equivalente ao de prefeito. Também foi deputado geral pela província do Rio de Janeiro em 1880.
O conhecimento do espiritismo – Quando o médico e amigo Joaquim Carlos Travassos realizou a tradução de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, ofereceu um exemplar autografado para Bezerra. Ele identificou-se totalmente com a obra e em 16 de agosto de 1886, diante de um auditório com aproximadamente 2 mil pessoas, assumiu em público sua adesão ao Espiritismo.
Devido à grande desenvoltura nas letras foi convidado pela Comissão de Propaganda da União Espírita do Brasil para escrever semanalmente no jornal O Paiz, tradicional órgão da imprensa nacional, dirigido por Quintino Bocaiúva. Os artigos, todos escritos sob o título O Espiritismo – Estudos Filosóficos, levavam o pseudônimo Max e foram publicados ininterruptamente de 1886 a 1893.
Em 1894, aos 64 anos, foi convidado para presidir a Federação Espírita Brasileira, na qual cumpriu sua função até 11 de abril de 1900, quando desencarnou devido ao ataque de congestão cerebral. Minutos antes, fez uma oração e pediu a Maria, mãe de Jesus, amparo aos que ficavam na Terra.
“Um médico não tem o direito de terminar uma refeição, nem de escolher hora, nem de perguntar se é longe ou perto, quando um aflito lhe bate à porta. O que não acode por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe ou no morro; o que, sobretudo pede um carro a quem não tem com o que pagar a receita, ou diz a quem lhe chora à porta que procure outro, esse não é médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros dos gastos de formatura. Esse é um desgraçado, que manda para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e trazia a única gorjeta que podia saciar a sede de riqueza de seu Espírito, a única que jamais se perderá nos vai-e-vens da vida.”
Bezerra de Menezes. |